ÔĽŅ SINDASUL - Sindicato dos Administradores de Mato Grosso do Sul

BC reduz Selic para 8% ao ano, menor patamar da história
12/07/201216:42:00
 

Diante da aus√™ncia de sinais claros de que o Produto Interno Bruto (PIB) responde √†s medidas adotadas pelo governo para acelerar a atividade econ√īmica, o Comit√™ de Pol√≠tica Monet√°ria (Copom) do Banco Central anunciou a redu√ß√£o da taxa b√°sica de juros (Selic) pela oitava vez consecutiva. Com a decis√£o desta quarta-feira, a Selic cai 0,5 ponto porcentual (p.p.), passando de 8,5% ao ano para 8% ao ano ‚Äď o menor patamar j√° visto no pa√≠s. A decis√£o est√° em sintonia com as expectativas de economistas ouvidos pelo site de VEJA.

Em comunicado enviado ao mecado, o comit√™ destacou que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajet√≥ria da infla√ß√£o. Ressaltou ainda que a fragilidade da economia global tem implicado um efeito "desinflacion√°rio" nos pre√ßos vigentes no pa√≠s. Com isso, os diretores optaram por dar prosseguimento ao afrouxamento da pol√≠tica monet√°ria. A redu√ß√£o da Selic para 8% ao ano foi un√Ęnime e sem vi√©s. Na √ļltima decis√£o, os diretores do BC haviam cortado os juros b√°sicos em 0,5 p.p. 

Na ata da reuni√£o de 30 de maio, que antecedeu a finalizada hoje, o Copom j√° havia sinalizado que acompanharia os movimentos externos para decidir o que fazer com os juros, deixando a "porta aberta" para novos cortes. O √≥rg√£o, no entanto, fez a ressalva de que qualquer movimento seria feito com parcim√īnia, sinalizando quedas graduais.

Rafael Bacciotti, analista da Tend√™ncias Consultoria, explica que o corte de juros em 0,5 p.p. fundamenta-se na piora do cen√°rio internacional, visto que as incertezas, principalmente com a Europa, permanecem altas. Ele apontou tamb√©m o fato de a recupera√ß√£o da atividade dom√©stica estar distante da esperada e, por fim, a infla√ß√£o mais comedida no pa√≠s. Esses tr√™s fatores, na avalia√ß√£o dele, d√£o tranquilidade para o BC dar continuidade ao ciclo de afrouxamento monet√°rio.

Para a Tend√™ncias, este n√£o ser√° o √ļltimo corte do ano. Bacciotti acredita que o ciclo deve se encerrar apenas em agosto, quando as taxas de juros devem chegar a 7,5% ao ano. Pedro Paulo Silveira, economista da TOV Corretora, √© um pouco mais destemido na an√°lise. ‚ÄúO mais prov√°vel √© que ocorram mais redu√ß√Ķes de juros nas pr√≥ximas reuni√Ķes. Trabalho com cortes para at√© 7%, isto √©, mais duas vezes de 0,5 ponto porcentual‚ÄĚ, diz. 

Andr√© Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora, defende que o atual momento n√£o √© de "pudores monetaristas". Ele defende que o BC ter√° de ser ousado e jogar a Selic para al√©m do que o mercado acredita ser razo√°vel. ‚ÄúCaso contr√°rio ele s√≥ estar√° perdendo tempo‚ÄĚ, dispara. ‚ÄúO Copom tem a urg√™ncia e a responsabilidade de evitar a obstru√ß√£o ainda maior do canal de investimentos por conta de expectativas ruins‚ÄĚ, acrescenta o analista, em refer√™ncia √† retic√™ncia do empresariado em investir no mercado interno. Na opini√£o dele, a Selic deve encerrar 2012 em 7% ao ano. Pontua, contudo, que poderia ser mais. ‚ÄúPara ter o efeito necess√°rio nos parece adequado ousadia, ou seja, 6% o mais r√°pido poss√≠vel‚ÄĚ, destaca.

Dados ruins ‚Äď Esta quarta-feira foi marcada por indicadores que comprovam o mau momento do Brasil. O √≠ndice de vendas do varejo de maio, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠sticas (IBGE),apontou queda mensal de 0,8% ‚Äď a maior desde novembro 2008, quando se deu o estouro da crise financeira internacional e as vendas recuaram 1,3%. O n√ļmero supreendeu negativamente o mercado, pois o varejo era o setor de melhor performance na economia em 2012. A inadimpl√™ncia, por sua vez, subiu 19% no primeiro semestre ante os primeiros seis meses do ano passado, conforme divulga√ß√£o da Serasa Experian.

Na semana passada, o IBGE revelou que a produ√ß√£o industrial recuou 0,9% em maio ante o m√™s anterior, o terceiro resultado negativo consecutivo neste tipo de compara√ß√£o. J√° o √≠ndice de Pre√ßos ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo mesmo instituto, acumula altas de 2,32% no ano e de 4,92% em doze meses at√© junho ‚Äď n√ļmero menor que os 4,99% registrados em maio, na mesma base de compara√ß√£o. A desacelera√ß√£o da alta dos pre√ßos √©, em parte, reflexo da perda de ritmo da economia e abre espa√ßo para juros mais m√≥dicos.

Para contornar a crise econ√īmica, o Pal√°cio do Planalto j√° anunciou, desde o in√≠cio do ano, v√°rias medidas, entre elas a redu√ß√£o do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de eletrodom√©sticos, m√≥veis e carros. Divulgou tamb√©m um pacote de compras governamentais para ajudar setores retra√≠dos. O an√ļncio desta quarta-feira do menor juro b√°sico da hist√≥ria do pa√≠s pode ser entendido como uma continuidade desta pol√≠tica.

Pessimismo ‚Äď Os analistas ouvidos pelo site de VEJA, contudo, s√£o c√©ticos de que a presidente Dilma Rousseff e sua equipe conseguir√£o salvar o PIB nacional de uma performance p√≠fia neste ano. Como pano de fundo, a Europa segue submersa em dificuldades financeiras, crescente endividamento, d√ļvidas sobre a for√ßa do euro e dificuldade de melhorar as contas p√ļblicas. Os Estados Unidos recuperam-se mais lentamente do que o previsto. A China ‚Äď maior esperan√ßa do Brasil, por ser seu principal parceiro comercial ‚Äď est√° desacelerando a olhos vistos. No Brasil, os empres√°rios pisam no freio dos investimentos enquanto aguardam maior clareza do cen√°rio internacional. O problema, disse o gerente de pol√≠tica econ√īmica da Confedera√ß√£o Nacional da Ind√ļstria (CNI), Fl√°vio Castelo Branco, na semana passada, √© que a produ√ß√£o n√£o avan√ßa justamente por conta disso. "Se conseguirmos alavancar os investimentos, reverteremos situa√ß√£o no segundo semestre, com mais otimismo e com mudan√ßa de expectativa. O ano que vem pode ser ano de crescimento mais forte, desde que o investimento mostre vigor mais forte do que agora", considerou. Esse cen√°rio complexo, na vis√£o dos economistas, reduz a efic√°cia das medidas do Planalto.

Leia mais: Mercado reduz novamente previs√£o de alta do PIB de 2012

De olho em 2013 ‚Äď Se para este ano o mercado prev√™ um PIB de, no m√°ximo, 2,05% e novas quedas da Selic, alguns economistas j√° alertam que as proje√ß√Ķes mudam completamente para o ano que vem. A expectativa para 2013 √© de um quadro inflacion√°rio com maiores riscos, o que deve levar o Copom a iniciar um novo ciclo de alta de juros. Economistas afirmam que esta e, sobretudo, as pr√≥ximas tr√™s reuni√Ķes deste ano ‚Äď 28/29 de agosto, 9/10 de outubro e 27/28 de novembro ‚Äď come√ßam a focar o cen√°rio de 2013, dada a defasagem dos impactos da pol√≠tica monet√°ria na economia.

Rafael Bacciotti, da Tend√™ncias Consultoria, elenca tr√™s fatores principais a adicionar risco ao quadro inflacion√°rio do pr√≥ximo ano. O primeiro √© o aumento de pre√ßos administrados, especialmente por n√£o se tratar de um ano de elei√ß√Ķes e com poss√≠veis reajustes de transporte p√ļblico. Al√©m disso, o cen√°rio internacional n√£o deve ser fator de forte conten√ß√£o da infla√ß√£o como tem sido em 2012. Por fim, a alta dos pre√ßos dos servi√ßos deve se sustentar em patamares mais elevados do que a infla√ß√£o cheia ‚Äď um reflexo de um mercado de trabalho ainda positivo e da atividade econ√īmica mais forte em 2013. Tudo isso num momento em que o PIB conviver√° com taxas de juros reais em patamares historicamente reduzidos.

Alerta ‚Äď Em seu relat√≥rio trimestral, o banco BNP Paribas alerta que, em algum momento do ano que vem, o governo pode ser, inclusive, obrigado a adotar medidas para desacelerar o crescimento, al√©m de retomar a trajet√≥ria de alta da taxa b√°sica de juros para 9%. Suas proje√ß√Ķes apontam para um Produto Interno Bruto de 2% em 2012 e IPCA a 5,2%. 

S√©rgio Vale, economista da MB Associados, concorda com o banco franc√™s sobre o aumento da Selic em 2013, mas ressalta que, desta vez, a escalada de juros ser√° menos intensa do que vimos nos √ļltimos anos. ‚ÄúTalvez n√£o precisando chegar a dois d√≠gitos, o que ser√°, de fato, uma mudan√ßa estrutural importante para a economia brasileira‚ÄĚ, afirma. Em sua vis√£o, o pr√≥ximo passo ser√° a queda gradual da meta de infla√ß√£o do pa√≠s. "O patamar de 4,5% √© um absurdamente elevado sob qualquer padr√£o e ter√° de ser discutido em algum momento nos pr√≥ximos anos‚ÄĚ, aponta.

Para o economista, a conjuntura externa também deve prosseguir sob o olhar atento do Banco Central. Em sua opinião, a crise internacional permanecerá por um bom tempo com risco de piorar e, provavelmente, o banco se apegará a esse argumento para justificar novas quedas, com Selic testando o patamar de até 6,5% neste ano.


Fonte: Veja