Empreendedores otimistas: arriscar sempre, mas sem perder a racionalidade jamais
17/07/201217:25:00
 
Olá pessoal! Nesta semana vamos começar com os questionamentos do leitor Alex de Figueiredo Siqueira. Ele nos conta que está no penúltimo período de um curso superior, possui um emprego e mora no interior de Minas Gerais. Ele nos diz que possui um projeto para se tornar empreendedor e que acredita que seu projeto teria mais sucesso em uma cidade de maior porte. Por último ele nos conta que está em dúvida sobre se tranca a matrícula em seu curso e se aventura com sua reserva financeira "de curto prazo" ou se espera mais um pouco.


Alex, todo empreendedor, por definição, é um otimista. Explicando melhor, o empreendedor é a pessoa que abre mão de alternativas mais seguras, como uma carreira em uma grande empresa, para arriscar seu dinheiro, tempo e muitas vezes dinheiro e tempo dos outros em uma iniciativa própria.

Todos nós sabemos, objetivamente, que um negócio sempre pode dar errado. Repito: por melhor que seja sua ideia, por mais recursos que você tenha à disposição e mais bem preparado que você esteja, ainda assim sua empresa pode ir por água abaixo por fatores fora de seu controle. A história está cheia de pessoas bem preparadas e com boas ideias que ficaram pelo caminho (só que raramente vemos biografias e histórias contadas sobre aqueles que fracassaram).

A questão do Alex gira em torno do "momento certo" de sair da empresa, se mudar e iniciar um negócio novo. Como toda grande mudança, o problema pode ser desmontado em vários passos menores para nos ajudar a pensar e tomar decisões.

O primeiro ponto é a necessidade de um curso superior para se tornar empreendedor. Via de regra, ter um curso superior pode ajudar, mas o conhecimento necessário para tocar o dia a dia de uma empresa pode ser conseguido em outros lugares. Tecnicamente falando, a não ser que você vá atuar como empreendedor em uma área que valorize a formação, como a área de consultoria por exemplo, ou uma área que títulos são necessários para começar a atuar, como Engenharia, Arquitetura, Atividades ligadas à saúde e assim por diante, um curso superior não é necessário. Por outro lado, um curso superior pode valer muito caso sua iniciativa empreendedora dê errado e você precise encontrar um emprego.

Quanto ao dinheiro, é comum ouvirmos dúvidas sobre quanto é preciso ter de "reserva" antes de iniciar um negócio, ou até se vale a pena ou não se endividar. O leitor Inácio Júnior, por exemplo, enviou recentemente um e-mail perguntando se vale a pena ou não começar uma empresa se endividando. Inácio, essa também vale para você: falar sobre dívidas de pessoas físicas e empresas são coisas completamente diferentes. Via de regra, sou contra pessoas físicas assumirem dívidas a não ser que seja como formação de patrimônio (como quando você financia um imóvel para morar nele e parar de pagar aluguel, por exemplo), e sou contra dívidas adquiridas apenas para o consumo (como quando você faz uma compra no shopping em sei lá quantas vezes no cartão porque acha que precisa ter aquele novo produto). O imóvel pode melhorar sua vida. Uma televisão maior pode esperar até você ter condições de pagar por ela.

Quando falamos de empresas, no entanto, estamos em um campo bastante diferente. Isso porque muitas vezes é necessário, e até desejável, que a empresa assuma dívidas. A dívida de uma empresa será aplicada em capital produtivo, e se o retorno sobre as atividades da empresa forem maiores que os juros cobrados sobre a dívida, a empresa deve buscar essa opção. Hoje, com a queda da taxa de juros a patamares historicamente baixos e o apoio de instituições como o BNDES, é possível encontrar soluções que vão de capital inicial para abrir uma empresa a dinheiro para investir em atividades de inovação.

Vamos partir do princípio de que você, como empreendedor, dará uma volta por algumas instituições financeiras e fará a escolha mais adequada na relação entre a quantia que necessita e os juros e prazo em que deverá pagar. A questão que resta é só uma: de onde virá o dinheiro? Não estou dizendo de onde virá o dinheiro para sua empresa crescer e se tornar uma multinacional daqui a vinte anos. Estou perguntando de onde virá o dinheiro para pagar suas contas pessoais mais as despesas iniciais da empresa quando ela começar a funcionar.

É muito diferente começar uma empresa quando já temos um ou dois clientes garantidos, que nos permitam ao menos pagar as contas básicas, e começar uma empresa com a ideia de que se você fizer direito, os clientes vão aparecer.

Se você já sabe de onde vem o dinheiro, está muito mais seguro para começar. Se quer abrir um negócio para então começar a correr atrás de clientes ou esperar eles aparecerem, está em um terreno mais perigoso. Eu diria, em um chute educado, pois cada negócio tem as suas especificidades, que ao começar você deve ter algo entre 6 meses e 2 anos de contas "pagas", seja por sua reserva pessoal, seja por clientes garantidos.

Eu sei, eu sei, é possível sim começar sem nada. A história está cheia de pessoas que começaram na lama e terminaram no céu. Mas vocês perguntaram minha opinião sobre o curso mais prudente. E o mais prudente é reconhecer que por mais que você se esforce as coisas podem dar errado.

Isso não quer dizer que as coisas vão dar errado. Pelo contrário, torço por vocês e por todo mundo que vem me pedir ajuda sobre como empreender ou inovar (afinal, se não fosse assim, talvez fosse melhor eu mudar de profissão). Mas é preciso reconhecer que as coisas podem dar errado. Ninguém quer ser aquele cara endividado pela empresa, que já pediu dinheiro aos pais, irmãos e alguns primos, mas todos conhecemos alguém assim.

A resposta sobre dívidas e a dúvida do Inácio, é que antes de assumir qualquer dívida, você deve ter uma boa ideia de onde virá o dinheiro para pagá-la.

Voltando à questão do Alex, se vale a pena trancar a faculdade a esse ponto e iniciar imediatamente sua empresa, eu diria o seguinte: a princípio, não faria mal programar isso para o próximo ano. Nesse período, Alex, você pode ir programando seus passos e atividades. Pode já prospectar locais onde se instalar, pesquisar diferentes mercados e até tentar conhecer um ou outro cliente em potencial antes de começar. Além disso, lhe dar uma segurança maior para começar, o dinheiro que conseguir juntar daqui até o momento de pedir demissão pode ajudar. Além disso, nesse prazo você terá um diploma na mão, o que pode não te ajudar diretamente em seu negócio, mas pode vir a calhar caso você precise voltar ao mercado um dia.


Fonte: administradores.com.br