ÔĽŅ SINDASUL - Sindicato dos Administradores de Mato Grosso do Sul

Inteligência multifocal para administradores: mais do mesmo?
12/11/201216:07:00
 
Faz uns dois anos que estava conduzindo um treinamento de Excelência de Desempenho e Administração do Tempo, quando um participante perguntou a minha opinião sobre a inteligência multifocal, dizendo que se tratava de um conceito inovador sobre o pensamento. Não tive resposta, já que não conhecia nada, mas me propus a estudar o assunto. Isto porque, o meu foco, nas atividades de treinamento, é voltado para resultados e é bem conhecida a relação entre pensamento, emoção, ação, resultados. Ou, como já dizia Buda há mais de dois mil anos: "Tudo o que somos é resultado do que pensamos".


E logo de saída ficou evidente o seguinte: o livro, Inteligência Multifocal, quer vender que contém uma teoria revolucionária sobre o funcionamento da mente, capaz de causar grande impacto na Ciência, estimulando a formação do ser humano como pensador e engenheiro de ideias.

A quest√£o √© que quem trabalha, com administra√ß√£o ou treinamento, h√° algum tempo, com certeza, j√° viu in√ļmeras teorias, que foram sucesso mundial, sumirem e hoje ningu√©m mais tem a menor ideia de que existiram como, por exemplo, a Teoria Z de William Ouchi, que tratava de excel√™ncia organizacional. E tamb√©m j√° viu equ√≠vocos fant√°sticos de gurus, como Gary Hamel, que no seu livro Liderando a Revolu√ß√£o, cita a Enron como modelo de empresa a ser seguido. E menos de um ano depois, a Enron faliu envolvida num mar de lama.

O fato √© que a todo o momento est√£o sendo lan√ßados livros que se dizem inovadores e a solu√ß√£o definitiva e, quando vai se ver, n√£o acrescentam nada. S√£o apenas modismos e a maneira como s√£o apresentados n√£o passa de uma estrat√©gia de venda da editora. Assim, quando come√ßo a ler alguma coisa prometendo mundos e fundos, tomo minhas precau√ß√Ķes. E se for verdade, √≥timo. Portanto, para n√£o comprar gato por lebre, resolvi assumir a postura de um comprador profissional. Ou seja, era preciso saber se o brilhante era verdadeiro ou falso. E, em termos pr√°ticos, verificar se seria poss√≠vel agregar valor aos treinamentos que desenvolvo: Excel√™ncia de Desempenho, Negocia√ß√£o e Lideran√ßa.

Os procedimentos

O que fiz para tirar as minhas conclus√Ķes foi, simplesmente, aplicar ao livro, "Intelig√™ncia Multifocal", o m√©todo que o autor, Augusto Cury, recomenda para realizar mudan√ßas emocionais, que chama DCD, duvidar, criticar, determinar. Eu apenas fiz uma pequena altera√ß√£o e criei o m√©todo DCC, duvidar, criticar, concluir. Assim, para tirar as minhas conclus√Ķes, passei a duvidar e a criticar, ou seja, segui as pr√≥prias recomenda√ß√Ķes do autor. Igualmente, levei em considera√ß√£o Kurt Lewin - "N√£o h√° nada t√£o pr√°tico quanto uma boa teoria". Isto significa que se a teoria √© boa, ela deve levar √†s melhores pr√°ticas e, consequentemente, aos melhores resultados.

A bibliografia

O primeiro ponto que considerei foi a bibliografia. E percebe-se, para come√ßar, que n√£o h√° nada sobre sem√Ęntica, sobretudo a gram√°tica transformacional de Noam Chomsky. Afinal, quem quer falar sobre pensamento e intelig√™ncia deve entender de linguagem, entre outras coisas, pelo que afirmava Jacques Lacan: "o inconsciente est√° estruturado como linguagem". Mas tamb√©m n√£o encontrei nada sobre coaching, programa√ß√£o neurolingu√≠stica, teoria geral dos sistemas, cibern√©tica, din√Ęmica de grupo, comportamento organizacional, comunica√ß√£o, criatividade, hipnose, terapias cognitivo comportamentais, entre elas a TCER - Terapia do Comportamento Emotivo Racional de Albert Ellis, bem como sobre cren√ßas e o sistema imunol√≥gico.

Em suma, a bibliografia √© bastante limitada e parece desconhecer o que j√° existe sobre o assunto, inclusive, no mundo do treinamento e desenvolvimento de pessoas nas empresas. E, sem a menor sombra de d√ļvida, √© em fun√ß√£o deste desconhecimento, que Intelig√™ncia Multifocal quer fazer crer que est√° revolucionando e estimulando a forma√ß√£o do ser humano como pensador e engenheiro de ideias. A bibliografia n√£o leva em considera√ß√£o, entre outros, livros como:

- Controle Cerebral e Emocional, Narciso Irala - 30ª edição, - 1997

- The Inner Game of Tennis, Timothy Gallwey - 1974

- Usando a sua mente, as coisas que você não sabe que não sabe, Richard Bandler - 1987

- The Book on Mind Management, Dennis Deaton - 1994, ou seja, 4 anos antes da publicação de Inteligência Multifocal.

Entendendo o conceito

Intelig√™ncia multifocal √© um conceito derivado de intelig√™ncias m√ļltiplas de Howard Gardner, mas no livro n√£o existe uma p√°gina que especifique concretamente o que quer dizer. Encontram-se fragmentos ou divaga√ß√Ķes. Assim, fui recorrer ao dicion√°rio e a palavra √© evidente por si mesma: significa ter v√°rios focos. Mas estes focos seriam ao mesmo tempo? Isto seria a mesma coisa que dirigir autom√≥vel e mandar torpedo pelo celular. Ou ent√£o, corresponde √†quilo que Chris Argyris chama de foco ca√≥tico e √© uma das principais causas do baixo desempenho nas empresas. Neste sentido cabe lembrar Emmet Fox: "At√© conseguir colocar sua aten√ß√£o naquilo que quer, voc√™ n√£o pode se considerar um mestre de suas a√ß√Ķes. Voc√™ nunca ser√° feliz at√© que seja capaz de determinar no que ir√° pensar na hora seguinte".

Às vezes, a impressão que se tem é de que inteligência multifocal não passa de um checklist de competências. Assim por exemplo, trabalhar em equipe, ter espírito empreendedor, colocar-se no lugar do outro, saber ouvir, trabalhar com adversidade, são características da inteligência multifocal. Mas não existe nada sobre o mais difícil, que é como se faz isso. Ou seja, tudo o que se faz normalmente no treinamento e desenvolvimento de pessoas nas empresas, passou a ter o nome de inteligência multifocal. Mas aquilo que quer dizer tudo, acaba não dizendo nada.

Outras considera√ß√Ķes

Outro ponto importante √© o seguinte: se voc√™ tem a melhor teoria, ela deve levar, consequentemente, aos melhores resultados, com qualidade e velocidade. E n√£o √© isso o que se verifica nos casos cl√≠nicos relatados por Cury. Assim, por exemplo, h√° o caso de um empres√°rio que ficou com fobia de avi√£o. Quem conhece sobre t√©cnicas de cura r√°pida da fobia resolve a quest√£o em aproximadamente 30 minutos, e n√£o foi isto o que aconteceu no caso relatado. E se houvesse necessidade de fazer frente a uma situa√ß√£o como a vivida pelo coach americano Anthony Robbins, qual seria o desfecho? Quando Robbins estava come√ßando a sua carreira, foi desafiado pela Life Magazine a mostrar, na frente de seus rep√≥rteres, que o seu trabalho de mudan√ßa realmente funcionava. Para isto, foi escolhido um jogador de basquete dos Los Angeles Lakers, Byron Scott, que estava tendo um desempenho med√≠ocre. Havia feito somente 3 cestas no √ļltimo jogo. Quando Robbins come√ßou o processo de mudan√ßa, fez um teste inicial e Scott s√≥ conseguia fazer 2, eventualmente, 3 cestas em cada 5 tentativas. Depois de conclu√≠do o trabalho, veio o teste final e Scott conseguiu 28 cestas em 30 tentativas, ou seja, uma mudan√ßa espetacular. E isto demorou apenas 40 minutos e, diga-se de passagem, n√£o foi utilizado nada de intelig√™ncia multifocal. Byron Scott veio a se tornar um dos melhores jogadores da NBA.

Conclusão com relação à forma

Para me aprofundar um pouco mais na quest√£o, li outros livros do mesmo autor e constatei que, assim como Intelig√™ncia Multifocal, s√£o cheios de generaliza√ß√Ķes, coisas vagas e difusas, chav√Ķes, lugares comuns, obviedades ditas com grande pompa, frases de efeito e, muitas vezes, lembram o livro Caldo de Galinha para a Mente. Al√©m do mais, s√£o extremamente repetitivos. Frequentemente as mesmas hist√≥rias e at√© os mesmo par√°grafos s√£o encontrados em mais de um livro.

E existem "pérolas" fantásticas, como a mencionada abaixo:

"√Č estranho que muitos jovens n√£o saibam com detalhes o que est√° acontecendo no mundo".

Entretanto, na p√°gina anterior est√° escrito:

"o c√©rebro humano n√£o √© um dep√≥sito de dados. Suas janelas n√£o s√£o ilimitadas, o que indica que a cultura in√ļtil estressa a mente".

Uma coisa que chama a aten√ß√£o √© a cria√ß√£o de novos r√≥tulos para coisas conhecidas. Assim, por exemplo, a mem√≥ria de curto prazo passou a se chamar MUC, mem√≥ria de uso cont√≠nuo. As emo√ß√Ķes de dor e fragilizadoras passam a ser janelas killer duplo P. E o fato de que todas as experi√™ncias de uma pessoa s√£o gravadas na mem√≥ria passou a se chamar fen√īmeno RAM, registro autom√°tico da mem√≥ria. E por ai vai. Mas n√£o √© pelo fato de algu√©m chamar tartaruga de urubu que a tartaruga vai come√ßar a voar.

De qualquer maneira, para me certificar das minhas conclus√Ķes, fui pesquisar outras fontes, e eis o que diz Renato Zamora Flores, professor do departamento de gen√©tica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e especialista na an√°lise de imposturas cient√≠ficas: "Os √ļnicos trechos mais ou menos aproveit√°veis da teoria da intelig√™ncia multifocal s√£o vers√Ķes pobres das ideias de cientistas como o neurologista Ant√≥nio Dam√°sio. O resto √© pseudoci√™ncia"

Redirecionando o foco

Assim sendo, para um administrador, o conceito de inteligência multifocal não agrega valor e não passa de um rótulo muito bem bolado. Mas descobrir por que Augusto Cury vende tanto livro pode ser de grande valia, inclusive para se identificar como funciona a cabeça do consumidor. Neste sentido, estamos diante de um case de grande sucesso. Mas como o objetivo deste artigo não era tratar da psicologia do consumidor, vou traçar apenas um esboço, em termos de entrada, processamento, produto, deste sistema de sucesso. Entretanto, acho que este tema merece ser objeto de outros artigos, e até de um estudo mais aprofundado, por quem tem interesse na área.

Vamos a alguns pontos:

Entrada: S√£o todos os insumos adotados no processo produtivo, inclusive, onde Cury busca inspira√ß√£o para escrever seus livros. Assim vejamos: antes de Intelig√™ncia Multifocal haviam sido publicados Intelig√™ncia Emocional e Intelig√™ncias M√ļltiplas; antes de Nunca Desista dos seus Sonhos, havia sido publicado Voc√™ √© do Tamanho dos seus Sonhos; antes de Mestre dos Mestres foi publicado Jesus, o maior Psic√≥logo que j√° Existiu; antes de Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, foi publicado Pai Rico, Pai Pobre.

Ou seja, Cury tem um grande faro para o sucesso e alavanca o seu sucesso em livros que foram best-sellers. E além disto, foi muito competente para criar uma marca forte, que é inteligência multifocal.

Processamento: com relação à produção, não temos elementos para saber se Cury escreve sozinho ou se tem equipe. Pode-se apenas supor. O fato é que ele escreve uma média de 2 livros por ano, faz muitas palestras e ainda atende no consultório. Assim, ou ele faz uma administração espetacular do tempo, ou tem equipe.

Produto: Em todos os seus livros, Cury se apresenta como a autoridade máxima, o cientista, o pesquisador, o psiquiatra que sabe o que se passa nas mentes das pessoas, inclusive, o que se passou na mente de Cristo. Além disto, repete sem parar que descobriu algo novo e revolucionário, a inteligência multifocal. Se você comprar isto, você acaba perdendo a consciência crítica e querendo ser mais um discípulo do mestre. E quem perde a consciência crítica não é capaz de perceber coisas como o que segue, extraído de um de seus livros:

"Ela leu dez vezes este livro". Como pode estar escrito no próprio livro, entre outras coisas, se o livro ainda estava na primeira edição? Então, estamos diante de um livro que faz uma profecia sobre si mesmo ou do primeiro caso de um livro que se reescreve automaticamente.

Para concluir

Confesso que esperava muito mais do conceito de inteligência multifocal, pois esperava encontrar algo que realmente estimulasse a formação do ser humano como pensador e engenheiro de ideias. O fato é que não se cumpre o que se promete e até chega a parecer que estamos diante da invenção da roda quadrada.

Assim, n√£o resta a menor d√ļvida de que Augusto Cury √© um excelente vendedor, haja visto o sucesso espetacular da sua obra. O problema √© que nem todo mundo √© comprador profissional.

E mais: um ser humano pode perder tudo, menos a esperança, a paixão por vencer e a consciência crítica.

Fonte: Administradores