Depressão ganha contornos corporativos
14/10/201114:47:00
 

Neste episódio, o professor Daniel Bonatti mostra como a tecnologia influencia na criação de algumas palavra

Houve um tempo em que a depressão era associada a um estilo de vida desregrado, mais encontrada entre as paredes de artistas, sejam eles pintores, músicos ou poetas que passavam os dias atormentados por uma questão existencial, ou obcecados por questionar padrões e criavam para si uma áurea de tristeza e melancolia que os consumia. Esse cenário que se lê nas biografias de muitos famosos passou a fazer parte cada vez mais próxima do cotidiano banal. Inclua-se aí as empresas. O Brasil contabiliza 17 milhões de quadros depressivos, segundo números da Organização Mundial de Saúde (OMS). O que equivale dizer que, a cada 100 pessoas, nove apresentam o problema.

 

Um número que agora atormenta também os que cuidam da saúde do trabalhador no ambiente corporativo. Exemplos aparecem todos os dias. No início de 2010, a assessora de imprensa Luciana Ferreira começou a sentir dificuldades para se “desligar” do trabalho. Mesmo depois de uma jornada diária de 11 horas, ela levava tarefas para casa e não conseguia dormir. “Eu queria quitar todas as pendências e não parava de pensar durante a noite”, relata. Como resultado, acordava “extremamente cansada”, sem ânimo algum, e o dia começava cinza. “A primeira coisa que pensei foi que estava ficando estafada”, lembra. Com o passar do tempo, o quadro se agravou e outros sintomas apontaram mais do que estafa ou estresse. “Eu chorava para ir trabalhar; ia dirigindo e chorando.” Assustada, Luciana cogitou alguns dias de férias, mas logo descobriu que seu caso já não se resolveria apenas com descanso ou uma viagem. Conversando com sua psicóloga, ouviu palavras que até então pensou que jamais pronunciaria ao falar de si mesma: “Eu estava com sintomas de depressão e fui encaminhada para um psiquiatra.”

 

O quadro da assessora era moderado, e 15 dias de afastamento do trabalho foram suficientes para que ela colocasse a vida de volta aos trilhos. Hoje, respeita mais os próprios limites no trabalho e, mesmo sem ter recebido alta do antidepressivo e ansiolítico, considera a fase superada. “Estou bem, continuo meu tratamento, com o psiquiatra e a terapia. Ainda trabalhando muito, mas agora chego em casa e durmo.”

 

Última fronteira

Luciana não responsabiliza seu problema a seu dia a dia intenso. Modelos vistos em casa e um traço de personalidade fazem dela uma pessoa “que se cobra muito”, conforme se define. De qualquer modo, foi impossível dissociar a doença do lado profissional, onde os sintomas acabaram aparecendo. Mas ela está longe de ser um caso isolado.

Foi-se o tempo em que a maior preocupação dos gestores de saúde nas empresas ficava restrita as lesões por acidentes de trabalho, responsáveis por 52% dos afastamentos. Hoje a depressão começa a ganhar terreno e avançar do foro íntimo para merecer atenção também no mundo corporativo. Foi vencida a última fronteira, como define a psicóloga Fátima Macedo, diretora da Mental Clean, que presta consultoria em saúde mental para empresas. “O ambiente de trabalho é o local onde as pessoas têm mais facilidade para mascarar os sintomas de seu estado depressivo, quando esses são mais leves”, explica.

 

O número é tão surpreendentemente avassalador que empregadores não sabem ao certo como lidar. Muitos chegam a desconfiar se o funcionário está se escondendo atrás da depressão, para não fazer o que deve ser feito. Por outro lado, em geral a pessoa com depressão tem dificuldades para assumir que tem esse tipo de comportamento. Pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB), em 2008, indicava as doenças mentais – incluindo dependências químicas e esquizofrenia – no terceiro lugar do ranking de causas de afastamento do trabalho, atrás de lesões (fraturas de pernas e braços, por exemplo) e das moléstias osteomusculares, como dores na coluna. “Em São Paulo, já está se falando em segunda causa”, informa Fátima.

 

Com este cenário, as organizações têm percebido que o assunto não pode ser ignorado. Para muitas delas, não basta cumprir a lei, no tocante ao afastamento do funcionário. A identificação do problema, antes que ele se agrave, ganhou relevância, assim como programas e ações de prevenção e de educação. “As corporações estão sendo obrigadas a fazer alguma coisa”, analisa a psicóloga. “As pessoas estão adoecendo.”

 

Mal moderno

Segundo psicólogos e médicos do trabalho, o mal não está necessariamente ligado ao emprego. Mas o estilo de vida moderno funciona como um gatilho para a doença, devido à correria do dia a dia, à sensação de insegurança e de urgência. “Mas se você considerar que o indivíduo fica, em média, de oito a dez horas na empresa, isso acaba afetando diretamente o trabalho”, avalia o médico Anísio Calasans, gerente do Departamento de Saúde Ocupacional da Companhia Paranaense de Energia (Copel). “O ambiente corporativo é o foco maior de relacionamento, de uso do tempo, então a gente tem visto, na última década, um aumento muito grande no número de casos.”

 

O médico revela que, na Copel, os transtornos mentais e de comportamento oscilam entre o segundo e o terceiro motivo de afastamento entre os 9 mil empregados. Ele não sabe precisar o motivo da incidência, mas explica que são muitos os fatores que podem desencadear o quadro. “São coisas como insatisfação no trabalho ou em casa, problemas pessoais, como perdas de amigos ou família”, elenca. Além de acompanhar os casos, a empresa tenta se adiantar a eles. Uma das maneiras tem sido promover exames periódicos, que incluem tópicos ligados a questões emocionais e psicológicas, na chamada anamnese, a entrevista médica. Os atestados apresentados pelos profissionais também passaram a receber atenção especial, pois contribuem para compor as estatísticas sobre os casos. A terceira forma foi capacitar a gerência para detectar quando algo está fora do normal com o funcionário. Os programas de ação continuada com as lideranças passaram a abordar relacionamento interpessoal, como tratar as pessoas e perceber mudanças de comportamento.

 

Esse olhar atento do gestor é uma das grandes contribuições empresariais na prevenção e no tratamento da doença. Justamente por estar mais próximo à pessoa, ele tem uma visão privilegiada e pode ser os olhos da organização. Desse modo, a companhia pode chamar esse colaborador para conversar sobre o problema, a fim tentar orientá-lo. “A empresa não vai dar um diagnóstico”, ressalta a psicóloga Fátima Macedo. “Mas vai sinalizar que alguma coisa não está bem com aquele indivíduo. Isso é fundamental.” Reside aí, diz a especialista, a importância de se ter um conhecimento prévio sobre o assunto, para se fazer uma abordagem adequada.

 

O importante, porém, é que a empresa mantenha a conversa no âmbito profissional, respeitando a linha que separa a invasão da omissão. Em outras palavras, é preciso focar em questões estritamente ligadas ao trabalho – à produtividade do funcionário ou a seu comportamento no dia a dia com colegas e chefes. “Normalmente, ele é muito grato por isso”, garante a psicóloga. “Porque alguém percebeu que ele realmente não estava bem; que foi acolhido diante de uma necessidade.”

 

Duplo esforço

É esse o modelo usado pela produtora de ferro fundido Tupy Fundições, onde trabalham 8 mil colaboradores. Uma psicóloga de plantão incentiva a procura, por parte dos próprios trabalhadores. Mas mesmo quando esses não tomam a iniciativa, o departamento médico da Tupy encaminha os casos, quando detectados nos exames periódicos. O passo seguinte é uma conversa com a liderança do setor, para expor a situação aos gestores. “Geralmente esse problema vem acompanhado de absenteísmo e de uma queda no desempenho da pessoa”, ressalta a gerente de Recursos Humanos para a área de saúde da companhia, Márcia Regina Sacht Wolfgramm. “Então a gente coloca para o líder dessa pessoa que ela realmente está passando por um problema, que ela precisa de atenção.”

 

Mas nem sempre as coisas saem de acordo com os planos. Abordar o assunto ainda é algo delicado, e as informações sobre doenças mentais são escassas. “A gente chega a escutar termos como ‘safado’ e ‘vadio’”, revela Márcia, referindo-se à reação de alguns chefes. “Quando ouvimos esse tipo de coisa, procuramos nos aproximar ainda mais, para evitar qualquer tipo de represália.” O trabalho, segundo ela, é duplo: acompanhar o funcionário doente e orientar e observar o gestor. “É difícil para as pessoas aceitarem que estão com esse problema”, afirma. “Pelo receio de sofrerem alguma punição. Como, às vezes, é preciso se afastar do trabalho, a pessoa tem medo de se expor e até ser demitida.”

 

Chefe-problema
A auxiliar administrativa Ana Carolina Sarmento foi vítima da doença e pôde contar com todo o apoio legal e moral. “Minha chefe ficou assustada”, conta. “Perguntou se alguém tinha me feito alguma coisa.” Na verdade, tinha. O problema, segundo Ana, foi agravado pelo comportamento de um gerente, mas ela não culpa a empresa. “Eu vim transferida de Belém do Pará, em 2008, então já estava um pouco fragilizada, estranhando a cultura etc. Daí peguei um gestor difícil, que atinge você justamente pelo lado psicológico.”

A jovem explica que a tática do chefe consistia na prática do morde e assopra. A guerra de nervos resultou em seis meses de afastamento por síndrome do pânico seguida de depressão. “Fui ficando cada vez mais ansiosa, sentia que as pessoas estavam me perseguindo. Só via o lado ruim de tudo”, narra Ana Carolina. “Por causa disso, eu não conseguia resolver nada no trabalho; parece que tinha esquecido tudo o que eu sabia.” O ápice foi um surto com a mãe ao telefone, três meses depois dos primeiros sintomas. Depois de ser convencida por colegas a procurar ajuda, a orientação foi procurar um psiquiatra. Além do diagnóstico, o médico a proibiu de voltar ao trabalho. “Ele me disse que eu não poderia mais continuar sem remédio nem ficar sozinha; me aconselhou a ir para a casa da minha família, em Belém.” Ana Carolina só conseguiu voltar à vida normal e ao seu dia a dia no trabalho depois que soube que o tal chefe havia sido demitido.

 

Estresse e preconceito

À reportagem, tanto Ana Carolina quanto Luciana disseram acreditar que poderiam ter feito algo para evitar o problema. Para a psicóloga Fátima Macedo, esse sentimento estaria ligado a uma sensação de culpa, comum nos casos depressivos. “Existe uma cobrança da sociedade moderna com relação ao indivíduo ter de ser poderoso o tempo todo, forte, sempre no controle”, pondera a especialista, analisando ainda que tal reação tem origem no preconceito. “As pessoas pensam que é isso é falha de caráter, fraqueza, que a pessoa não fez o esforço suficiente para não ficar daquela forma.”

 

O gerente de plano de saúde e ambiência corporativa da Caixa Econômica Federal, Orency Francisco da Silva, esclarece que é justamente essa a postura combatida na empresa diante de casos de depressão. “Nós sabemos que, em muitos lugares, a primeira coisa que se faz quando a pessoa diminui sua capacidade produtiva é demiti-la”, afirma. “Aqui, a realidade não é essa.” O gestor faz questão, ainda, de defender o que costuma ouvir, com frequência, que depressão é “mal de bancário.” “As pessoas não passam a existir a partir do momento em que começam a trabalhar numa empresa”, defende. “Elas são uma somatória de experiências. Então dizer algo assim é uma coisa muito forte.” É até com intuito de dissipar esse equívoco, que o banco tem investido em programas de promoção da qualidade de vida e da saúde, física e mental, de seus funcionários.

 

Um deles, ainda em fase piloto em Brasília, terá foco no estresse. “Exatamente em razão do aumento de casos de transtornos mentais, a gente vai buscar orientar as pessoas a lidarem com esse mal”, adianta o gerente. “Esse programa será expandido nacionalmente.” Outra ação tem sido incluir informações sobre depressão e outras doenças emocionais nas palestras da Semana de Prevenção a Acidentes de Trabalho, cujo tema deste ano foi “Viva Sem Estresse”. “Procuramos orientar que a vida não é só trabalho, que é importante ter atividades culturais, físicas – enfim, aproveitar o tempo de outra forma.”

No entanto, fica a pergunta: com as cargas horárias vigentes na maioria das empresas sobra tempo para “aproveitar o tempo de outra forma”? “A maior parte dos empregados da Caixa trabalha seis horas por dia”, adianta-se em responder o executivo. “O número de funcionários que trabalha oito horas é muito pequeno. Mais de oito horas, só quem faz hora extra.”

 

Fique de olho

 

Quatro sintomas que merecem atenção – a si mesmo e aos outros:

 

Mudanças de comportamento: Todo mundo tem um jeitão característico, que marca a personalidade e nos torna reconhecíveis nos meios que frequentamos – entre eles, o trabalho. Se isso sofrer alterações significativas, acompanhadas de busca por isolamento, vale uma pausa para pensar a respeito.

 

Irritabilidade: São muitos os motivos que nos tiram do sério no trabalho. Mas sempre há um limite. Se as reações ultrapassarem o normal e a paciência cair a níveis abaixo do solo – com os colegas e ou com o chefe –, busque saber se está tudo bem.

 

Tristeza e angústia: Atenção! Esses sentimentos não devem ser confundidos com depressão. Sentimo-nos assim por muitos motivos – perdas, frustrações, rompimentos. O importante é saber que isso deve passar. Se o estado persistir, cogite procurar uma opinião profissional.

 

Cansaço: Assim como a irritação, o cansaço é comum para a maioria das pessoas – sobretudo, para quem trabalha. Para isso servem os finais de semana, as folgas e as férias: descansar. Não resolveu? Ao contrário, sente-se cada vez mais cansado? Sinal amarelo.


Fonte: Canal RH