ÔĽŅ SINDASUL - Sindicato dos Administradores de Mato Grosso do Sul

Os defeitos e virtudes universais dos cursos de Administração
15/08/201311:17:00
 

*Por Alfons Sauquet

Seja na gradua√ß√£o ou na p√≥s-gradua√ß√£o, as institui√ß√Ķes de ensino voltadas para as √°reas da Administra√ß√£o t√™m um papel fundamental de responsabilidade perante a sociedade; confira uma an√°lise feita pelo reitor da Esade, uma das principais escolas de neg√≥cios do mundo

Devido √† press√£o aplicada nas universidades de Administra√ß√£o ap√≥s a crise financeira, √© f√°cil ignorar as verdadeiras contribui√ß√Ķes que elas realizam para a sociedade e lamentar sobre o quanto poderiam ter feito. A verdade √© que as institui√ß√Ķes dessa √°rea executam v√°rios pap√©is diferentes e, √†s vezes, n√≥s precisamos parar e analisar a forma como elas contribuem para a sociedade, pois somente assim, √© poss√≠vel preparar um caminho melhor para o futuro.

Cinco pontos

De in√≠cio, o papel simples que as escolas de Administra√ß√£o exercem √© atrair e treinar talentos. O recurso humano sofisticado √© vital para o desenvolvimento econ√īmico e gestores treinados em universidades est√£o aptos a oferecer tanto o conhecimento operacional quanto o eficiente processo decis√≥rio de que as empresas tanto precisam. Quando a universidade est√° localizada em pa√≠ses emergentes, esse t√≥pico se torna ainda mais importante, pois deve priorizar a produ√ß√£o de graduados direcionados para aproveitar as vantagens do contexto econ√īmico positivo e assim ajudar o pa√≠s a crescer.

O segundo e controverso papel das escolas de Administra√ß√£o √© a responsabilidade de instigar valores na pr√≥xima gera√ß√£o de l√≠deres. A educa√ß√£o, em geral, pode ser descrita como uma maneira de capacitar as pessoas a se tornarem agentes ativos no processo de transforma√ß√£o de suas sociedades. Embora treinar os futuros transformadores da sociedade n√£o √© uma responsabilidade √ļnica das escolas de Administra√ß√£o, n√£o tenho d√ļvida de que √© esperado dos estabelecimentos educacionais n√£o apenas formar trainees, mas pessoas com uma base √©tica s√≥lida e bom senso geral.

O aprendizado tamb√©m deve focar na conduta que permitem √†s pessoas conviverem em um ecossistema plural e diverso. As escolas de Administra√ß√£o, geralmente, v√™m sendo eficientes nessa parte, com n√≠veis de diversidade em sala de aula vistos em poucas disciplinas. Apesar disso, muitas alcan√ßaram pouco sucesso no foco de valores. Embora seja relativamente f√°cil identificar um conjunto de valores e declar√°-los para o mundo, √© muito mais complexo construir um processo decis√≥rio baseado neles. Ent√£o a quest√£o √© como focar em efici√™ncia comercial e ao mesmo tempo instigar uma compreens√£o das compet√™ncias sob as quais essas decis√Ķes s√£o feitas e as suas consequ√™ncias a longo prazo.

Em terceiro lugar, existe a influ√™ncia que as escolas de Administra√ß√£o exercem na forma√ß√£o da opini√£o p√ļblica e a press√£o que elas podem exercer na forma√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas. Essa fun√ß√£o cobre desde usar a sua capacidade intelectual para ensinar a popula√ß√£o a interpretar o status quo, a obriga√ß√£o de ajud√°-la a agir conforme suas vis√Ķes ou at√© realizar lobby com institui√ß√Ķes p√ļblicas com o objetivo de influenciar decis√Ķes pol√≠ticas.

√Č claro que, o qu√£o menor o pa√≠s ou maior for a necessidade de desenvolvimento econ√īmico, aumenta o n√≠vel de influ√™ncia e responsabilidade que as escolas da √°rea t√™m neste campo. Hoje n√≥s vemos que diversas universidades est√£o adotando uma atitude reflexiva, reconhecendo que ser uma institui√ß√£o que produz e oferece conhecimento traz grandes responsabilidades para a sociedade.

Em quarto lugar, al√©m de ter uma voz p√ļblica, as escolas de Administra√ß√£o tamb√©m t√™m um papel vital a desempenhar no desenvolvimento e dissemina√ß√£o da gest√£o e do pensamento econ√īmico que resultam em pesquisa. Em anos recentes, ganhou for√ßa a discuss√£o do rigor versus relev√Ęncia ‚Äď car√°ter esses que mostra um afastamento das institui√ß√Ķes de Administra√ß√£o da procura do status acad√™mico (que resulta em avan√ßos frequentemente inaplic√°veis) em dire√ß√£o a trabalhos mais √ļteis no "neg√≥cio dos neg√≥cios".

O desafio est√° em encorajar o uso de pr√°ticas de pesquisa nas quais diferentes metodologias possam coexistir, juntamente com um esfor√ßo para transformar a pesquisa b√°sica e s√≥lida em uma arma√ß√£o educacional que consiga transmitir a pr√°tica atrav√©s da educa√ß√£o. Enquanto esse √ļltimo objetivo requer um esfor√ßo dedicado a algo que n√£o trar√° um prest√≠gio acad√™mico √≥bvio, o primeiro requer mentes flex√≠veis. Ent√£o, as escolas de Administra√ß√£o devem usar sua criatividade para desenvolver uma maneira para lidar com isso.

Finalmente e, possivelmente uma extens√£o desses √ļltimos dois elementos, est√° a relev√Ęncia da pr√≥pria escola de Administra√ß√£o do ponto de vista institucional. Isso √© notado com mais clareza em economias de transi√ß√£o que estejam afastando-se de modelos centralizados de governo ou regulamenta√ß√Ķes restritivas. Nesses casos, n√£o √© somente a produ√ß√£o da institui√ß√£o que √© relevante, mas a pr√≥pria escola como marco dessa transi√ß√£o. Existem valores agregados √† pr√≥pria natureza do trabalho escolar aplicado nas universidades que as tornam pontos de refer√™ncia para uma sociedade em transi√ß√£o. E assim, os cursos da √°rea tornam-se fontes de desenvolvimento dentro da sociedade.
 
Papel e responsabilidade

Ent√£o, com tantas maneiras diferentes de influenciar a sociedade, as escolas de Administra√ß√£o t√™m v√°rios desafios √† frente. Precisamos refletir honestamente sobre o nosso papel na sociedade, considerando como pesamos esses diferentes tipos de influ√™ncias e, conscientemente, decidirmos como devemos lidar com eles. Isso vai bem al√©m de pequenos ajustes no ensino para demonstrar os discursos comuns e implementa√ß√Ķes padr√£o.

As escolas de Administra√ß√£o est√£o tendo que lidar cada vez mais com a transforma√ß√£o que a educa√ß√£o comercial est√° sofrendo rumo a tornar-se um produto de mercado. Isso poderia gerar v√°rios perfis de desenvolvimento que encorajariam a competitividade, alinhando recursos internos, estrat√©gias de marketing e chegando ao desenvolvimento institucional. Mas essa necessidade de diferencia√ß√£o conflita diretamente com os objetivos de padroniza√ß√£o definidos pelas organiza√ß√Ķes de ranking. Embora esses objetivos almejem aumentar o n√≠vel da educa√ß√£o em Administra√ß√£o, eles geralmente buscam faz√™-lo atrav√©s de produ√ß√£o de curto prazo.

Isso, por√©m, reflete outro desafio: a diferen√ßa entre as motiva√ß√Ķes dos participantes e o que a escola deveria ensinar para maximizar a sua contribui√ß√£o √† sociedade. Por exemplo, estudantes de MBA, frequentemente, escolhem a institui√ß√£o por causa da sua imagem e a facilidade que ter√£o em conseguir um bom trabalho ap√≥s a gradua√ß√£o. O conte√ļdo do programa acaba ficando em segundo plano. E quando os estudantes analisam o conte√ļdo, eles procuram as ferramentas que possam maximizar a sua efici√™ncia, e n√£o desenvolver um pensamento cr√≠tico.

E √© no conte√ļdo que as escolas t√™m uma chance de realmente fazer a diferen√ßa. As de Administra√ß√£o se encontram divididas entre atender √†s demandas imediatas dos candidatos e educ√°-los de uma forma que ir√° maximizar a sua contribui√ß√£o para a sociedade como a pr√≥xima gera√ß√£o de l√≠deres.

O desafio está em encontrar um equilíbrio entre esses dois, garantindo resultados excelentes em curto prazo para o graduado, enquanto instigando neles uma perspectiva de longo prazo. Uma das maneiras que esse objetivo pode ser alcançado é aumentando a quantidade de pensamento crítico necessário nos cursos, talvez retornando às raízes humanísticas da Administração, encorajando os participantes a encontrar as causas, efeitos e falhas em aplicar certos modelos ou métodos.

Ent√£o, as escolas de Administra√ß√£o de hoje enfrentam v√°rios desafios. E, ao inv√©s de uma resposta clara e direta para a quest√£o do papel que elas devem desempenhar na sociedade, n√≥s acabamos com um "depende". Mesmo se todos n√≥s concordarmos que o papel do ensino deve ser influenciar a pr√≥xima gera√ß√£o de l√≠deres, √© complicado definir como isso deve ser feito. Mas temos uma certeza: se as escolas n√£o refletirem bastante sobre esses assuntos, a sua fun√ß√£o nunca ser√° clara e elas continuar√£o a ser criticadas. Dando import√Ęncia ao seu papel na sua pr√≥pria sociedade, as institui√ß√Ķes de Administra√ß√£o ao redor do mundo v√£o descobrir que elas podem criar novas oportunidades, aceitando as responsabilidades que isso traz.

*Alfons Sauquet é reitor da ESADE Business School, uma das escolas de negócio com mais prestígio internacional, e co-editor de Business schools and their contribution to society