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Pesquisa diz que 40% das policiais jå sofreram assédio sexual ou moral
30/03/201515:34:00
 

O trabalho delas Ă© proteger as pessoas. Mas, muitas vezes, sĂŁo elas que precisam de proteção. VocĂȘ vai ver o resultado de uma pesquisa inĂ©dita sobre assĂ©dio contra mulheres policiais dentro de suas prĂłprias corporaçÔes. SĂŁo relatos dramĂĄticos.

Relatos parecidos ecoam pelos corredores das delegacias e quartĂ©is. Mulheres policiais assediadas por outros policiais. De tĂŁo frequentes, os casos viraram tema de uma pesquisa inĂ©dita do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica e da Fundação GetĂșlio Vargas.

Os dados são sombrios: 40% das entrevistadas disseram jå ter sofrido assédio moral ou sexual no ambiente de trabalho. A maior parte das vezes quem assedia é um superior. O levantamento foi feito com mulheres das guardas municipais, pericia criminal, Corpo de Bombeiros e das Policias Civil, Militar e Federal. Tudo de forma anÎnima. Não à toa. A pesquisa também mostrou que só 11,8% das mulheres denunciam que sofreram abuso.

“Medo da pessoa, medo da minha carreira, medo de ser tachada pelos outros”, afirma uma mulher que não quis se identificar.

Poucas se atrevem a mostrar o rosto. Como Marcela e Katya. Esta semana, elas foram com outras duas colegas à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para falar sobre o assédio que dizem ter sofrido.

As quatro sĂŁo policiais militares e alegam terem sido vĂ­timas da mesma pessoa, o Tenente Paulo CĂ©sar Pereira Chagas.

“Sempre esse tenente sempre passava por mim, pelo pĂĄtio da companhia e me elogiava. Falava assim: ‘seu sorriso alegra meu dia’, conta Katya FlĂĄvia de Queiros, soldado da PolĂ­cia Militar. 

“AtĂ© que as conversas começaram a ficar mais ousadas”, conta Marcela Fonseca de Oliveira, soldado da PolĂ­cia Militar.

“Na Ă©poca, meu casamento foi totalmente abalado por isso. Passei muita dificuldade. Tive que voltar para casa dos meus pais. Minha vida foi totalmente destruĂ­da por causa disso”, relembra Katya.

Foi então que elas entenderam que não eram culpadas pelo assédio e decidiram se unir para denunciar o homem que elas apontam como agressor.

“A gente se sente tão fraca quando está em uma situação dessa’, diz Marcela.

O Fantåstico procurou o tenente, mas quem respondeu por ele foi a Polícia Militar de Minas Gerais. Em nota, a PM diz que o assédio é transgressão grave, de acordo com o código de ética e disciplina da corporação.

Mas, atĂ© agora, a Ășnica punição sofrida pelo tenente foi a transferĂȘncia do local de trabalho.

“Elas nĂŁo tĂȘm mais o acompanhamento do oficial que dirigiu a elas esses gracejos” diz o comandante da 10Âș RPM de Patos de Minas/MG, Coronel Elias Saraiva.

“Eles não veem a gente como profissional, como uma militar, como todos os outros. É como se a gente fosse um pedaço de carne. Ou que estivesse lá desfilando para embelezar o quartel”, lamenta Katya.

Em qualquer ambiente de trabalho, casos de assédio sexual e moral são graves. E quando os envolvidos são policiais o desfecho é imprevisível.

“Nosso policial anda armado e de repente pode acontecer uma tragĂ©dia”, afirma o presidente da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de MG, Marco Antonio Bahia.

“Nós sabemos que pessoas, tanto homens quanto mulheres que estão na corporação da polícia tem um tom de agressividade a mais do que a população geral”, diz a psiquiatra Alexandrina Meleiro.

“A gente fica atormentada, psicologicamente. Eu cheguei a um ponto que atĂ© eu tive vontade de matar”, afirma a vĂ­tima que nĂŁo quis se identificar.

Uma policial militar sofreu durante dois anos calada. Ela é casada e tinha medo que o assédio prejudicasse sua família e sua carreira.

“A pessoa começou a chantagear e ameaçar. Caso eu contasse para alguĂ©m, que ele ia reverter a situação contra mim. Ele falou assim: ‘vocĂȘ nĂŁo tem prova. VocĂȘ nĂŁo tem prova nenhuma. NinguĂ©m nunca viu eu fazendo nada’”, conta a vĂ­tima.

Até o dia que ela não aguentou tanta pressão.

“Eu estourei, comecei a gritar com ele e falar que ele me assediava o tempo todo, que ele era tarado, que eu estava com medo dele”, relembra a vítima.

Depois de uma investigação interna, a punição aplicada, mais uma vez, foi a transferĂȘncia para outro quartel.

“E foi tudo muito bem apurado. E foi comprovado o assĂ©dio”, conta a vĂ­tima.

As mulheres reclamam que nĂŁo existe um setor especĂ­fico para receber relatos de abusos sexuais e morais. Ao todo, 48% das policiais afirmam que nĂŁo sabem exatamente como denunciar. E 68% das que registraram queixa nĂŁo ficaram satisfeitas com o desfecho do caso.

“VocĂȘ nĂŁo tem a quem recorrer. Se todo mundo recorre a polĂ­cia, vocĂȘ estĂĄ dentro da polĂ­cia sofrendo assĂ©dio, vocĂȘ vai para onde?”, diz uma outra mulher que tambĂ©m nĂŁo quis ser identificada.

Uma PM do PiauĂ­ acusa a polĂ­cia de abafar os casos de assĂ©dio. “Eles procuram colocar, por ser um meio machista, a culpa na mulher. E nĂŁo a culpa neles mesmos que sĂŁo os causadores”, diz.

Segundo a PolĂ­cia Militar do estado, nos Ășltimos trĂȘs anos nenhuma denĂșncia formal de assĂ©dio foi registrada.

“A gente tem que tomar cuidado porque as prĂłprias policiais tĂȘm sido vĂ­timas de um crime, e que precisa ser investigado, que precisa ser explicitado”, afirma o pesquisador do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica Renato Sergio de Lima.

Uma Policial Civil diz que foi assediada durante meses. Ela Ă© da RegiĂŁo Metropolitana de Belo Horizonte e foi trabalhar no interior de Minas logo no começo da carreira. Era a Ășnica policial feminina do lugar e passou a ser alvo do delegado da cidade.

“Perguntava se eu queria carona. Se eu queria que ele me levasse pra casa. Eu dizia que nĂŁo e ele vinha me acompanhando o tempo todo. AtĂ© chegar perto de casa. AtĂ© no dia em que ele tentou me agarrar”, conta.

A partir daí, o assediador mudou de estratégia.

“Primeiro, eles tentam alguma coisa com vocĂȘ. Quando vocĂȘ fala que nĂŁo ai eles passam para o assĂ©dio moral. Ai vocĂȘ nĂŁo presta no serviço, vocĂȘ nĂŁo serve para nada”, conta a vĂ­tima.

As marcas do assĂ©dio moral para ela Ă© mais grave; ai vem a depressĂŁo. Vem atĂ© um fenĂŽmeno maior que Ă© o suicĂ­dio”, conta o presidente do Sindicato dos Servidores da PolĂ­cia Civil/MG, Denilson Martins.

VocĂȘ se sente um nada. VocĂȘ se sente menos que um grĂŁo. VocĂȘ nĂŁo se sente nada”, lamenta a mulher.

Em nota, a PolĂ­cia Civil de Minas Gerais afirma que tem um conselho de Ă©tica ligado Ă  Corregedoria-geral para acolher qualquer tipo de denĂșncia, inclusive as de assĂ©dio.

“Eu recorri dentro da própria instituição. Foi um erro porque a instituição não fez nada, só colocou panos quentes”, diz a mulher.

“Esse Ă© o grande problema: a quem reclamar. Eu acho que nesta condição a mulher deveria buscar o controle externo das policias que Ă© o MinistĂ©rio PĂșblico”, afirma a secretaria nacional de Segurança PĂșblica Regina Miki.

“Se a gente abaixar a cabeça, coisas como essas podem acontecer com mais gente”, afirma Katya Flávia de Queiros, soldado da Polícia Milita.

FONTE: FANTÁSTICO REDE GLOBO