Um em cada dez universitários do País cursa Administração
17/09/201517:19:00
 

SÃO PAULO ­ Administração é o curso que tem o maior número de matrículas no Brasil. Dos 7.305.977 alunos inscritos em graduações no País, 886.690 optaram por essa carreira (considerando cursos presenciais e a distância), segundo o Censo da Educação Superior 2013, dados mais atualizados do Ministério da Educação (MEC). Isso corresponde a 12% do total.

 É uma das graduações mais procuradas por formar profissionais que atuam com planejamento de estratégias, direção e gerenciamento em diversas áreas de empresas públicas ou privadas, explica o coordenador e professor do curso de Administração da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios, câmpus Osasco, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luís Hernan Contreras Pinochet. “O curso tem maior empregabilidade e possibilidade de inserção no mercado de trabalho. É o grande desafio da atualidade e requer mudanças sistemáticas das empresas, do perfil dos profissionais e dos centros de qualificação.”

 Para o professor da Unifesp, o alto número de matrículas é positivo para o País. “Grande parte das atividades e cargos de uma companhia exige essa formação. Há uma variedade de corporações que, impulsionadas pelas novas tecnologias, estimulam a necessidade de um administrador com perfil diferenciado.”

 Para o professor Hong Yuh Ching, coordenador do curso de Administração, câmpus São Bernardo do Campo, do Centro Universitário da Fundação Educacional Inaciana Padre Sabóia de Medeiros (Centro Universitário da FEI), Administração é o curso com maior número de estudantes porque tem baixo custo de manutenção e procura constante. “Isso é positivo, pois reflete a demanda do mercado de trabalho.”

 Vagas para todos. A altíssima flexibilidade para ramos de trabalho é um dos fatores que faz o curso ser um dos mais ofertados no País, segundo o professor Fernando Coelho Martins Ferreira, da Universidade Mackenzie. Entretanto, ele aponta uma desvantagem: a grande quantidade de graduados pode saturar o mercado, já bem disputado. “Boa parte das pessoas busca esse curso pela ampla oportunidade em áreas diversas, sejam públicas ou privadas. O mercado é altamente competitivo, mas, mesmo assim, não há vagas para absorver tantos formandos.”

 O total elevado de graduados em Administração todos os anos é visto com ressalva pelo presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Sebastião Luiz de Mello. “Os números nos saltam aos olhos. Mas, ao mesmo tempo, eles trazem preocupação. Estamos de olho não apenas na quantidade, mas, sobretudo, na qualidade do ensino.” Segundo dados do MEC de 2013, no Brasil há 2.384 cursos de Administração presenciais e 198 a distância.

Qualificação. Os profissionais recém-chegados ao mercado, segundo Mello, precisam estar qualificados e preparados para o exercício da profissão. “Por essa razão, o conselho não tem poupado esforços para lutar por uma academia mais alinhada com as necessidades do mercado de trabalho”, afirma. “Ou seja, por um ensino que vá além do conteúdo teórico e ofereça para este estudante a possibilidade de vivenciar, na prática, o dia a dia de um administrador.”

 Para Mello, essa formação de qualidade só é possível por meio da criação de laboratórios, incubadoras e agências juniores. “Serão nesses espaços que o estudante poderá saber como funciona uma área de Recursos Humanos e como se dá o planejamento e a parte de Finanças e Logística, além de compreender melhor o Marketing e desenvolver melhor a sua capacidade empreendedora.”

Essa abrangência de campos é um aspecto positivo da carreira apontado pelo professor Eduardo Fernandes Pestana Moreira, coordenador do curso de Administração do câmpus Perdizes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC­SP).

“O bacharelado em Administração, por navegar por várias áreas do conhecimento, atrai não só aqueles alunos que já estão identificados com essa futura carreira, como uma parcela que ainda está indecisa e opta por um curso mais abrangente. Isso é bom, já que é menor do que 10% o índice de abandono por troca de curso.”

Áreas de atuação. O campo de atuação para o administrador é dividido em diversos ramos: Administração de Empresas, Comércio Exterior, Administração Hospitalar, Recursos e Relações Humanas, entre outras.

 “Há várias oportunidades de carreira porque toda organização, seja pública, privada ou do terceiro setor, precisa de administradores para atuar em diferentes áreas como Finanças, Marketing, Produção, Qualidade e Tecnologia”, afirma o coordenador acadêmico da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), Cláudio Carvajal. “Além de atuar em qualquer tipo de organização, o administrador pode usar suas habilidades e competências para empreender, administrando negócio próprio.”

Os ramos de Recursos Humanos, Marketing, Finanças, Logística e Materiais são os mais procurados por administradores, de acordo com o presidente do CFA. “É nessas áreas que estão as maiores necessidades e as melhores oportunidades de trabalho”.

“O Brasil como um todo está carente de especialistas desses cargos de relevância.” Segundo dados da Pesquisa Nacional de Perfil, Formação, Atuação e Oportunidades de Trabalho do Profissional de Administração, realizada pelo CFA em 2011, as áreas funcionais (Administração Geral, Financeira, Vendas e Recursos Humanos) apareceram em 58,82% das preferências dos profissionais.

 Mello ressalta que a área de Recursos Humanos vinha decrescendo ano após ano, mas apresentou uma recuperação nesta pesquisa em relação ao levantamento realizado em 2006, passando de 6,73% para 9,46%. O presidente do CFA prevê aumento na procura por administradores em alguns campos. “Mediação e arbitragem, questões ambientais e as demandas do futuro (como nanotecnologia, longevidade e sustentabilidade) são áreas que seguramente vão necessitar de mais administradores.”

Um dos ramos que têm carência de profissionais no Brasil é a Administração Pública. Nele, o profissional se dedica principalmente ao âmbito do serviço público e também para organizações da sociedade civil, como as Organizações Não Governamentais (ONGs).

Mesmo com essas especificidades, existem pontos em comum com as demais áreas da Administração, isso tanto em termos de formação (matérias em comum no currículo, sobretudo as básicas) quanto nas possibilidades de atuação: um administrador público poderá trabalhar na iniciativa privada e vice-versa. Ou seja, um administrador de empresas pode vir a atuar na área pública. Para isso, precisa de experiência prática ou formação complementar que possibilite esse trânsito entre áreas.

 Potencial. “O campo da Administração Pública é tão amplo quanto a variedade de organizações públicas. Temos uma enorme gama de fundações, empresas de economia mista e autarquias. Mas o que demonstra o enorme potencial dessa carreira se refere à carência de mão de obra qualificada nesse campo na esfera pública”, afirma o professor e coordenador do curso de bacharelado em Administração Pública da Unicamp (Faculdade de Ciências Aplicadas), Oswaldo Gonçalves Junior.

“O Brasil tem 5.570 municípios, sendo que a maior parte não tem sequer um administrador público formado em seus quadros administrativos. Muito tem de ser feito ainda no País em termos de profissionalização da máquina pública.”

 Para ele, profissionais preparados para enfrentar os desafios, com boa formação, “são e ainda serão muito demandados no Brasil”. “A Administração Pública envolve um compromisso ético com o desenvolvimento de um País mais inclusivo e que traga melhor qualidade de vida à população, para o meio ambiente e para a sociedade como um todo.”

 Setor de serviços. O coordenador do curso de graduação em Administração da Universidade São Judas Tadeu, Elias Julio Pozenato, afirma que o Brasil é uma economia em que aproximadamente 70% do mercado de trabalho está voltado para o setor de serviços. “É preciso um administrador capaz de enxergar a organização por completo, ter competência para relacionar sistemicamente todas as áreas empresariais em ambientes complexos.”

De acordo com o professor, a oferta do curso de Administração vem acompanhando essa tendência. “Como o sistema econômico é cíclico, a longo prazo tendem a surgir novas possibilidades de atuação no mercado de trabalho em função da saturação sistêmica.”

 O coordenador acadêmico da Fiap destaca que as tecnologias “emergentes” têm possibilitado novas oportunidades para inovação nas empresas. “O administrador terá um ambiente sensacional para criar e desenvolver novos modelos de negócios e novas teorias para a área, nessa era da conectividade.” As empresas estão se reinventando, segundo Carvajal.

 Uma formação abrangente, com disciplinas na área de Exatas e Humanas, tem como grande vantagem possibilitar ao profissional desenvolver uma carreira flexível, o que muitas vezes permite a migração de áreas ao longo da trajetória profissional. “É comum um administrador exercer funções financeiras num momento da carreira, e de planejamento estratégico ou gestão de pessoas num outro.” Quando se forma, o administrador tem uma visão básica de todas as áreas de uma empresa. O aluno se identifica com uma delas, de acordo com seu perfil, e busca especialização, segundo Carvajal.

 O coordenador da graduação em Administração de Empresas da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV­EAESP), Nelson Barth, afirma que deve se considerar que tipo de administrador o aluno quer ser. “O aluno vai descobre as possibilidades aos poucos, conforme vai cursando as disciplinas.”


Fonte: ESTADÃO

<http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,um-em-cada-dez-universitarios-cursa-administracao,1757760>

Data:08/09/2015